
Comecei a escrever muito antes de escrever. Parece algo surreal, mas foi assim mesmo que tudo começou. Minha mente escrevia capítulos e mais capítulos de uma trama que se perdia entre as matérias que eu decorava no ensino fundamental. Até que descobri que tudo o que minha mente criara, depois de posto no papel, seria devorado, julgado, questionado por todos que lessem minhas estórias.
Ontem comecei a escrever a escaleta em que o núcleo de personagens negros, ou melhor, serei politicamente correto (isso me irrita) "afrodescendentes", entram na minha trama. Creio que de todas as tramas que criei, esta é a que mais consegui criar uma unidade psicológica de todos os personagens. Os personagens “negros” da minha trama são formados por uma família, que de fato pertence ao núcleo de humor. E o que sempre me impressiona é que eu não sei escrever humor rasgado, pastelão. Prestigio na trama dos outros. Meu humor é muito ácido, e crítico, como todo tipo de humor é no seu íntimo. Por isso esses personagens, no fundo brincam através de uma realidade vigarista e deplorável.
Por coincidência, assisti à um programa de TV que colocava dois atores: um negro e um branco. Vestidos com a mesma roupa, e protagonizando as mesmas situações pelas ruas de São Paulo. E qual foi a conclusão da comparação dos dois? O negro fora abordado várias vezes quando parado em frente a um condomínio de luxo; já o cara branco sequer foi notado, normal. Quando fingindo-se interessados em comprar um carro importado, o cara branco foi prontamente atendido e bem tratado; o negro foi deixado de lado pelo vendedor e questionado se ele tinha o “faz-me rir”, a grana, o ator diz que sim, e o vendedor o incita que compre o carro logo, não queria perder tempo com ele. Entre muitas outras situações, o negro sempre na desvantagem, aliás, nem isso, sem nem sequer ter tido alguma oportunidade.
Criei uma trama, que nada tem a ver com preconceito racial, e que em momento algum os personagens sofrerão algum tipo de conotação de inferioridade, onde a grande parcela de negros que poderão acompanhar a trama, sentirão que, por mais que não tenham sofrido o preconceito na carne, o sente de alguma maneira psicológica. Porque é latente a discriminação das pessoas, já está em seu DNA, por isso mantém-se velado, mais que isso, está enlatado. Mas que por vezes, indiretamente, e até inconscientemente é proferido.

Aí você me pergunta: Por que criar um núcleo de negros que não sofram nenhum tipo de discriminação na sua trama, sendo que o seu intuito é retratar a realidade?
Porque o meu objetivo é justamente esse: mostrar a realidade. Que nada tem a ver com as convenções que estão impregnadas à uma cultura milenar falida, mas que se mantém viva na memória e no conceito errôneo das pessoas. Quero retratar uma sociedade possível, sem rótulos, sem discriminação. E salientar cada vez mais que procuro viver num mundo onde as pessoas sejam julgadas pelo seu caráter, e não pela cor da sua pele. Por isso escrevo. Escrevo pra transformar. Para que as pessoas possam tolerar o que é intolerável... E eu ouvi você me perguntando “Por quê?”. Porque esta é a única opção.
Por Matheus Costa - Twitter
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